O 1º Juizado de Violência Doméstica de Rondônia deve julgar, nos próximos dias, o dentista Jean José Dunga de Oliveira, 41.
Ele está preso em Porto Velho desde 11 de junho, acusado de passar propositalmente o vírus HIV para ex-namoradas com quem se relacionou entre 2023 e abril de 2026.
Ele foi denunciado em duas ações distintas pelo MP-RO (Ministério Público de Rondônia), em 30 de abril e 25 de junho, pelos crimes de perigo de contato de moléstia grave e lesão corporal gravíssima. Há pelo menos mais uma vítima que acusa o dentista do mesmo crime, mas que ainda está em fase de investigação policial.
A coluna conversou com vítimas, que relataram que foram expostas ao risco e tiveram suas vidas transformadas. Duas delas aceitaram dar depoimentos à coluna em vídeo, contando detalhes de como conheceram o profissional e como ele agia (veja acima).
Todas as mulheres que procuraram a polícia afirmam que ele omitia a doença e, em algum momento, as induzia a ter relações sexuais sem preservativo. Jean, segundo elas, é especialista na área de implantes.
À coluna, a defesa do dentista alega que ele fazia tratamento e que não acreditava estar infectando as mulheres com HIV, e pede o aprofundamento das investigações.
Uma das vítimas diz que o perfil das mulheres com quem ele se relacionava parecia seguir um padrão. Segundo ela, Jean José se aproximaria de mulheres que não têm uma figura paterna, filho homem ou irmão. "Ele é uma pessoa que tem família conhecida e gera confiança na pessoa. Ele tem boa comunicação e se aproveitou dessa fragilidade", conta.
Segundo a investigação, o dentista sabia da doença desde pelo menos 2017. Médicos que o acompanhavam relataram em depoimento que ele não era assíduo no tratamento do vírus, o que impediria que tivesse zerado a carga viral —condição em que o paciente não transmite a doença.
Uma das maiores preocupações do MP-RO agora é que o comportamento do acusado leva a crer que existam muitas outras mulheres contaminadas ou expostas ao risco, inclusive fora do estado, mas que ainda não sabem da infecção ou sabem e têm vergonha de procurar as autoridades para denunciar.
"Uma das vítimas afirma que ele viajava sempre, frequentava casas de swing", afirma a promotora Eiko Danieli Araki.
Os casos foram divididos em dois processos porque inicialmente, em março, três mulheres foram ouvidas em um mesmo inquérito policial.
Ao fazer a denúncia dessas três primeiras vítimas, o MP-RO chegou a pedir a prisão do dentista, mas o pedido foi negado pela Justiça, que alegou "falta de contemporaneidade" —os casos ocorreram entre 2023 e 2025.
Ocorre que, em maio deste ano, uma quarta vítima surgiu. O caso chamou a atenção porque, no período dessa nova relação, o dentista já tinha sido interrogado na investigação prévia e, mesmo ciente de que havia contaminado ex-namoradas, voltou a ter relações sexuais sem camisinha.
Caso que levou à prisão
Um dos casos que mais chama atenção é o da última vítima, uma mulher com comorbidades — ela havia passado por uma cirurgia bariátrica, perdeu o útero e tinha carência de vitaminas. "Nada disso o comoveu", conta ela, que conheceu Jean em um site de relacionamento.
O namoro deles ocorreu durante os 30 dias de abril e foi determinante para que a Justiça acolhesse o pedido de prisão preventiva do dentista.
"No começo, transávamos com proteção, mas depois passamos a nos ver todos os dias. Ele era presente na minha casa, e com o tempo deixamos de usar preservativo."
Ela conta que Dunga a viu adoecer, mas, mesmo assim, não relatou nada. "Por conta dessa minha saúde frágil, senti sintomas logo com 15 dias. Fui ficando doente, e minha família, que tem profissionais da saúde, pensou logo que era dengue e malária, porque eu estava com manchas vermelhas, coceira."
Ela conta que, já em maio, após o fim da relação, fez exames para saber se tinha alguma IST (Infecção Sexualmente Transmissível). "Achavam difícil porque foi muito rápido, não é comum HIV manifestar sintomas assim."
Foi uma médica amiga da família quem ligou os pontos e lhe perguntou quem era seu parceiro sexual. Ao saber que se tratava de Dunga, ela a alertou sobre outras mulheres que foram contaminadas.
Ela me disse que três vítimas já tinham sido infectadas e pediu para verificar os meus exames. Só aceitei estar aqui [falando] porque sei que outras mulheres precisam saber, porque podem estar com o mesmo problema e não sabem. Ele já morou no Acre, fez especialização em Brasília, vivia viajando pela América do Sul.
Encaminhada para fazer um tratamento, ela relata que precisou ficar internada e ainda não conseguiu retornar à vida normal, mesmo três meses após a descoberta. "Voltei a trabalhar, mas com muitos problemas ainda. Tive uma infecção profunda e forte."
Defesa cita ignorância
Em nota ao UOL, a defesa de Jean, feita pelo advogado Rafael Valentin Raduan Miguel, manifestou "profundo respeito por seus relatos e solidariedade diante da dor, do medo, da angústia e das consequências pessoais e familiares narradas".
No texto, a defesa alega que a gravidade do caso "exige sensibilidade, responsabilidade e investigação rigorosa", e cita que a denúncia "não constitui conclusão definitiva sobre os fatos''.
O acusado esclarece que, no período relacionado às acusações, realizava tratamento antirretroviral e acreditava não haver risco de transmissão sexual do HIV. Seu histórico clínico, os exames de carga viral, a cronologia dos acontecimentos e o eventual nexo causal deverão ser examinados tecnicamente nos autos. A defesa reconhece que a realização do tratamento, isoladamente, não permite presumir carga viral indetectável. Por isso, não antecipará conclusões que dependem de documentação médica e análise pericial.
Rafael Valentin Raduan Miguel, advogado de Jean
Fonte: Uol
Foto: Reprodução UOL

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